quarta-feira, 18 de junho de 2008
100 anos depois...
depois de uma intimada dessas, vim aqui humildemente obedecer papai. porque papai manda e eu faço correndo, né?

vou colar um texto que fiz sobre o centenário da imigração japonesa. como eu não sei bulhufas da imigração, escrevi sobre o que sei bem: meus avós.
eu sei. nem eu aguento mais essas comemorações do centenário da imigração japonesa que duram o ano inteiro. e olha que meus avós, pais do meu pai, são nascidos lá.
pouco sei do meu avô, uma pena. quando eu era uma criança beirando a hiperatividade, correndo de calcinha pela casa, tirando sarro da cara dos meus primos mais velhos e brigando com os mais novos, meu avô era daqueles senhores distintos, que já acordavam com o cabelo a escovinha. lembro que ele só usava roupas sociais de tom cinza ou bege. ele pendurava um chaveiro na calça que fazia barulho enquanto andava. ele caminhava em volta da casa pra fazer exercícios. tinha sua própria poltrona na sala, ninguém ousava relar nela. sempre quando a gente chegava pra mais uma temporada de reveillón na casa dele, éramos presenteados com bombons e coca-cola. ah claro, marca registrada do meu avô, coca-cola. isso jamais faltou na casa dele. minha vó só bebe coca-cola até hoje. fanta, sprite, guaraná, pepsi? nem pensar, só coca-cola presta. meu avô lia jornais japoneses e todo ano assistia a corrida de são silvestre. ele tinha um orquidário lindo no quintal. eu sempre brincava por lá e acabava quebrando alguns vasos e matando algumas plantas. não sei como deixavam eu entrar naquela casa.
 a minha foto preferida dele.
ele plantou um pé de limão no fundo de casa, e era onde eu subia e caía quase que diariamente. quando ele ficou doente, o limoeiro ficou doente. quando ele morreu, o limoeiro morreu também. meu vô morreu em 1993 (ou 1994?), e a única coisa que eu lembro, era que a gente estava na bahia, mudando de casa. no meio daquela coisa de carregar e descarregar caixas, eu via minha mãe com um olhar triste, meu pai cabisbaixo e minha irmã chorando sem parar. bem mais tarde naquele dia me disseram que ele tinha morrido. eu tinha uns 9 ou 10 anos. quando eu voltei pro paraná, o orquidário não existia mais, nem a poltrona, nem o chaveiro fazendo barulho, nem os bombons. eu nem sabia quantos anos ele tinha, nunca conversei diretamente com ele, não sabia o que ele achava de mim, nem fiz perguntas idiotas de netas para avôs. avô não, meu dityan.
já com a minha avó foi diferente. além do fato dela ser viva até hoje, o português dela sempre foi melhor. entre meus 12 e 14 anos, nós moramos na mesma casa. ela foi pro japão com a gente, fazendo o caminho de volta sei lá quantas décadas depois. encontrou um japão mudado, muito diferente do que ela deixou quando tinha 6 anos de idade. até as pessoas idosas não entendiam muito bem o que ela falava, porque o japonês dela era antigo demais. se passou pouco mais de um ano e minha vó não quis mais ficar lá. disse que o lugar dela era no brasil. voltou sozinha, de avião. quando foi nossa vez de voltar, ela se mudou pra uma casa ao lado da nossa. e todos os dias às 7 da manhã, minha vó ia em casa, varria o quintal, lavava a louça e esperava eu acordar pra me ajudar a fazer almoço. eu já tinha idade o suficiente pra não fazer mais manha, nem estourar cano na casa dela, nem cortar a grama com a tesoura de costura dela. então a gente conversava muito. ela me contou todas as histórias de sua vida e eu quase chorei em todas. a viagem, a vida no cafezal, o casamento, os partos, a ida pra cidade, a loja, os 9 filhos...
quando eu fiquei grávida, minha vó foi a quarta pessoa a saber. ela só riu, bateu na minha perna e me chamou de danadinha. hoje em dia, quando ela me vê diz que eu preciso emagrecer logo, porque eu estou parecendo uma grávida. e foi pra mim que ela deu seus albuns de fotos antigas da família, pra guardar em um lugar seguro porque ela, como qualquer pessoa de 86 anos (é 86 né?), tem medo de morrer de repente.
 vovô e vovó no dia do casamento // a foto mais recente que tirei dela
e nesse post que eu sei que ela jamais vai ler, eu agradeço minha batyan por ter ido embora do japão, ter se casado, ter tido filhos e ter deixado meu pai se casar com uma gaijin e assim ter netas mestiças. porque senão, hoje eu seria uma japonesa de pernas tortas, cabelo rosa e roupas estranhas vagando em algum lugar daquela ilha linda, contraditória e sufocante.
por amanda.
- postado por Satolu, às 19:27 -
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